Toxoplasmose e gravidez: O gato é mesmo um vilão?

Entenda qual o papel do gato na transmissão desta doença e saiba quais os mitos e verdades sobre este assunto.

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  • Este tema me interessa por dois motivos: sou médica veterinária e já engravidei duas vezes. Ambas convivendo com meus dois gatos, além daqueles que atendo no consultório. Acho importante esclarecer ao público o que é toxoplasmose e o os mitos e verdades sobre a o papel dos gatos na sua transmissão.

  • 1. O que é a doença?

  • O agente da toxoplasmose é um parasita que pode infectar qualquer mamífero, mas ele se reproduz somente no intestino do gato. Para adquirir a doença, o ser humano precisa ingerir fezes do gato infectado ou comer carne crua ou mal cozida de cordeiro e porco, principalmente. Os sinais da doença em pessoas saudáveis são febre baixa, mal-estar e inchaço dos gânglios linfáticos que muitas vezes passam despercebidos. Em pessoas imunossuprimidas, como pacientes com AIDS e transplantados, a toxoplasmose pode causar problemas neurológicos e nos tecidos enxertados.

  • A infecção (não detectada e não tratada) da gestante pelo Toxoplasma gondii durante o primeiro trimestre da gestação pode levar à morte do bebê em 15 a 25% dos casos, pois o parasita atravessa a placenta até o feto e destrói os tecidos cardíacos, cerebrais, pulmonares e das retinas (olhos) em desenvolvimento. No segundo e terceiro trimestres da gestação os riscos são muito menores.

  • 2. Como detectar se o seu gato tem ou já teve a doença?

  • Os sintomas da toxoplasmose em felinos são mal-estar, perda de apetite, perda de peso, febre, corrimento ocular, vômito, diarréia ou problemas neurológicos como convulsões. Mas, na maior parte das vezes, estes sinais são tão leves e passageiros que nem são percebidos pelo dono. Nos gatos com doenças que causam imunossupressão, os sintomas são graves e podem levá-lo à morte.

  • Para detectar a doença, o proprietário do animal deve pedir ao seu veterinário exames de sangue específicos. De acordo com os resultados, o dono poderá saber se o animal já teve a doença, se nunca teve ou se a toxoplasmose está se manifestando no período do teste. Saiba que existe tratamento para esta doença e seu gato passará a ser portador do parasita, eliminando-o somente se tiver uma doença que reduza sua imunidade.

  • 3. Como detectar se você tem ou já teve a doença?

  • Da mesma forma que existem exames para os animais (e não somente os gatos), há testes sanguíneos para os humanos também. Eles detectam a quantidade de substâncias que são parte do sistema de defesa do nosso organismo chamadas imunoglubulinas. Se a pessoa estiver doente por causa do Toxoplasma gondii, um tipo de imunoglubulina chamado de IgM se mostrará alto. Se o indivíduo já teve a doença no passado, a IgG se mostrará aumentada.

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  • 4. O que fazer se você estiver grávida e for negativa para toxoplasmose?

  • Alguns cuidados devem ser tomados pela gestante, mesmo que esta não tenha gatos ou outros mamíferos em casa:

    • Não coma carne crua ou mal passada.

    • Lave bem as mãos e as superfícies de corte (tábuas, pia etc.) depois de preparar carnes cruas.

    • Ferva água para beber se a origem não for confiável.

    • Use luvas quando estiver trabalhando no jardim.

    • Lave sempre as mãos antes de se alimentar.

    • Se há gatos e cães na vizinhança que defecam em seu jardim, evite entrar em contato com as fezes (peça para outra pessoa limpar ou use luvas ao fazê-lo).

  • Para aquelas que, como eu, possuem gatos em casa é necessário prestar atenção a outras coisas também:

    • Não entre em contato com fezes de animais (há, por exemplo, cães que comem fezes de gatos, podendo se infectar e liberar o parasita em suas próprias fezes).

    • Esvazie as caixas de fezes e urina dos gatos diariamente (os parasitas precisam ficar nas fezes por, no mínimo, 24 horas para se tornarem infectantes).

    • Desinfete as caixas com água fervendo diariamente.

    • Não se esqueça de usar luvas ao limpar as caixas de areia dos gatos.

    • Tente evitar o contato do seu animal com gatos desconhecidos (castrar gatos reduz suas saídas às ruas e a interação com outros felinos).

    • Evite que seu animal tenha contato com fezes de outros mamíferos.

    • Faça os exames sorológicos para detecção da toxoplasmose em seu gato e cão.

  • 5. Ops! Estou grávida, tenho animais e sou negativa para toxoplasmose. E agora?

  • Calma. Não há com o que se preocupar:

    • Leve seu animal ao veterinário. Ele vai fazer todos os exames necessários para detectar não só a toxoplasmose como outras doenças nele.

    • Converse com seu obstetra sobre a situação para que ele possa acompanhar, através de exames de sangue, se você foi infectada.

    • Se você vier a ter toxoplasmose enquanto estiver grávida, não se preocupe, pois existe tratamento para evitar que a infecção passe para o feto ou mesmo que você tenha sintomas.

  • 6. Siga as instruções do obstetra

  • Para escrever este artigo, conversei com o ginecologista e obstetra paulista Dr. Roberto Eduardo Bittar, com mais de 30 anos de profissão. Segundo ele, “a gestante que convive com fatores de risco para a toxoplasmose, como ter gatos ou trabalhar com animais, jardinagem ou limpeza deve realizar o exame de sangue para detecção da doença mensalmente. Caso os resultados mostrem haver infecção aguda (recente), o tratamento com um antibiótico específico deve ser iniciado o mais rápido possível. Assim, nem o feto nem a mãe correm risco de adoecer”.

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  • 7. Siga as instruções do veterinário

  • O gato não é um perigo em potencial para gestantes. Ele é transmissor da toxoplasmose, mas se você convive com gatos há tempos provavelmente já teve a doença e isso é positivo para uma gestante, pois somente na infecção aguda é que o feto pode vir a ser contaminado. Mas se você nunca teve toxoplasmose e seu gato tem alguma doença imunossupressora ou sai às ruas e entra em contato com animais com histórico desconhecido, você deve ter cuidado redobrado.

  • Isso não significa que você tenha que se livrar do seu animalzinho. Isso não é a solução. Basta ter cuidado com suas fezes e ter bastante higiene alimentar.

  • 8. Palavra de mãe

  • Durante duas gestações convivi com gatos. Os meus dois bichanos tinham a época da minha primeira gravidez, nove e dez anos de idade. Assim como eu não eram positivos para toxoplasmose, ou seja, eu tive que tomar muito cuidado com minha higiene (e a deles também). Além disso, não deixei de exercer minha profissão durante esses períodos. Procurava atender todos os animais usando luvas (chegava a usar dois pares de uma vez), evitava contato com suas secreções e lavava sempre as mãos. Para me prevenir, a cada três ou quatro semanas realizava exames sorológicos. Estamos todos muito saudáveis até hoje e não creio que tenha colocado a mim ou a meus filhos em risco.

  • Abandonar um animal pelo medo de se infectar por uma doença que nem sabemos se ele tem só porque ouvimos falar de seu possível papel na transmissão é inadmissível. Há inúmeros cuidados que podemos tomar sem ter que realizar este crime.

  • Referências:

  • Consulta Veterinária em 5 Minutos - Espécies Canina e Felina. TILLEY & SMITH JR. Ed. Manole, 2003.

  • Medicina Interna de Pequenos Animais. NELSON & COUTO. Ed. Elsevier, 2006.

  • O Que Esperar Quando Você Está Esperando. MURKOFF, EISENBERG & HATHAWAY. Ed. Record, 2009.

  • Robbins - Patologia Estrutural e Funcional. COTRAN, KUMAR & COLLINS. Ed. Guanabara Koogan, 2000.

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Fernanda Trida é jornalista, médica veterinária, dona de casa, esposa, mãe de Marcela, com três anos, e de João, com um ano de idade.

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