O divórcio na visão de uma criança

O que minha filha de 5 anos me ensinou sobre casamento e separação.

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  • Meus quase 10 anos de casamento aliados a minha experiência como advogada me faziam pensar que sabia alguma coisa sobre casamento e divórcio.

  • Sou o tipo de pessoa que acredita que os relacionamentos familiares entre marido e mulher e entre pais e filhos transcendem a esta vida e foram feitos para durar por toda eternidade.

  • Infelizmente, minha prática profissional tem me mostrado que isso tem se tornado cada vez mais raro...

  • Eu já sabia que as crianças são os que mais sofrem durante um processo de separação, mas não imaginava a intensidade desse sofrimento até uma conversa que tive com minha filhinha de 5 anos.

  • Recentemente ela reclamou comigo que no dia anterior havia sido a última a ir embora da escola. Disse que isso era muito chato, porque ficou esperando sem ninguém pra brincar. Eu já sabia que meu marido saiu mais tarde do trabalho naquele dia e por isso atrasou para buscá-la.

  • Em tom de brincadeira, disse a ela: "Pode deixar, filha. Quando o papai chegar, vou dar uma bronca nele e dizer que não pode atrasar!"

  • Ela arregalou os olhinhos e disse assustada: "Não, mamãe! Se você der uma bronca no papai, vocês vão brigar... E então, terão que se separar!"

  • Eu fiquei pasma com essa resposta, afinal de contas eu e meu marido nunca brigamos. Já tivemos nossas divergências de opiniões, mas sempre conseguimos resolver de forma civilizada. Ou seja, nossa filha nunca nos viu gritar um com o outro, muito menos falar em separação. Fiquei me perguntando de onde foi que ela tirou essa história de separação.

  • Então, perguntei a ela se os pais de algum coleguinha da escola estavam se separando, ao que ela respondeu que sim. Disse: "Os pais da Aninha e os pais do Carlos também (os nomes foram modificados). O Carlos disse que os pais dele brigavam o tempo todo."

  • Meio sem jeito com a situação inesperada, disse a ela que quando um casal brigava demais, talvez fosse mesmo melhor se separarem. Ela respondeu com muita convicção: "Não, mamãe. Não é melhor! Porque dá muita saudade..."

  • Perguntei a ela se o Carlos estava sentindo saudades do pai e ela respondeu que sim. E disse também: "Sabe qual é a pior parte, mamãe? É ter que ficar mudando de casa toda hora – um dia na casa da mãe, outro dia na casa do pai. Ele disse que isso é muito chato."

  • Essa conversa me levou a refletir profundamente sobre a questão do divórcio. E dessa reflexão pude tirar as seguintes lições:

  • 1. O divórcio nunca é um ponto final

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  • Por mais simples e rápido que tenha se tornado o processo, o divórcio continua sendo trágico e doloroso quando ocorre e, às vezes, o sofrimento continua pelos vários anos seguintes.

  • Em quase todos os casos, a separação gera grandes transtornos emocionais, sociais e financeiros na vida das pessoas envolvidas.

  • E a verdade é, que apesar de tudo isso, o divórcio nunca é um ponto final da vida de um casal com filhos.

  • Questões como guarda, pensão alimentícia, visitas e obrigações com a educação dos filhos terão que ser ampla e exaustivamente discutida por anos a fio.

  • 2. Os filhos não entram na partilha dos bens

  • Parece óbvio, mas muitos casais em processo de divórcio parecem pensar que os filhos fazem parte dos bens materiais a serem divididos pelo casal.

  • Afirmo isso pela maneira com que vejo certos casais negociando (e até chantageando!) certos bens com base na definição dos critérios de visitas e guarda compartilhada.

  • Isso é uma atitude cruel e mesquinha e tende a tornar pior uma situação que já está pra lá de ruim.

  • 3. Não existe "ex-pai", nem "ex-mãe"

  • É impossível, emocional e legalmente falando, separar-se dos filhos.

  • Como disse no primeiro tópico, por mais que o casal queira definitivamente cortar relações um com o outro, terão que arcar juntos com a responsabilidade da criação dos filhos.

  • Um pai ou mãe divorciados nunca deve criticar nem desautorizar o ex-cônjuge na frente dos filhos.

  • Não se preocupe em convencer seu filho da falta de caráter do outro, pois, se isso realmente for verdade, ele chegará a essa conclusão por conta própria mais cedo ou mais tarde.

  • 4. O dever de remediar

  • Os pais têm o dever de buscar remediar ao máximo os danos emocionais causados nos filhos pela separação.

  • Se a ajuda profissional de um psicólogo for viável, será de grande utilidade para todos.

  • Independente disso, e por mais desgastante que tenha sido o processo do divórcio, os pais precisam se esforçar por manter um relacionamento, se não "amigável" (sei que no começo isso pode ser impossível!), ao menos "civilizado", em nome do bem-estar emocional dos filhos.

  • 5. A responsabilidade de nutrir a esperança

  • É preciso tomar o cuidado de não destruir nas crianças a fé no casamento e na família.

  • Não é porque um relacionamento acabou que todos os outros estão fadados a acabar também.

  • O casamento pode não ter dado certo, mas a criança precisa saber (e sentir!) que ainda faz parte de uma família e que é amada. A segurança que reside nessa certeza é o que a ajudará a superar os traumas que porventura tenham se instalado e a ajudará a crescer um adulto sem medo de se comprometer em um relacionamento no futuro.

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  • Nada do que eu disse aqui é fácil. Para falar a verdade, sei que é tudo muito difícil.

  • Mas também sei que um pai e uma mãe que verdadeiramente amam os filhos estão dispostos a qualquer sacrifício pelo bem-estar de seus pequeninos. E farão tudo a seu alcance para que cresçam emocionalmente saudáveis para uma vida plena e feliz, apesar de todos os desafios.

  • Quando os pais se divorciaram, esse garoto lhes escreveu uma carta

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Marilia Condé Aguilar é advogada, escritora, esposa e mãe. Adora pesquisar e está sempre em busca de soluções práticas para ajudá-la a equilibrar suas responsabilidades familiares e profissionais.

Website: http://lar-umpedacinhodoceu.blogspot.com.br/

O divórcio na visão de uma criança

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