Quando a outra metade de meu pai não estiver aqui

Somos responsáveis por muitas pessoas ao longo da vida, mas nos tornamos ainda mais quando um de nossos pais ficam sozinhos. Saiba como enfrentar esse desafio e levar alegria onde é só tristeza.

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  • Nenhum filho de pais companheiros e casados há muito tempo cogitam essa possibilidade. Porém, essa separação pode acontecer e não necessariamente por morte ou divórcio. Pode ser por motivo de viagem ou até uma doença temporária, deixando o companheiro incompleto sem sua outra metade.Jennifer Conlin em um artigo no New York Times faz um breve relato das mudanças que vivenciou com a viagem de sua mãe para cuidar de uma amiga doente. Ao deparar-se com o pai sozinho, a autora vê a rotina familiar totalmente modificada, repleta de saudades e oportunidades de cuidar e desfrutar da companhia de seu Papa.

    A mãe de Jennifer apenas fez uma viagem, mas e quando a separação é algo sem volta? Como filhos devemos reconhecer que somos responsáveis pelo bem-estar de quem tanto zelou pelo nosso. Quando um se vai e não volta mais, é preciso compreender as necessidades daquele que ficou, agir com paciência e cautela para ofertar a atenção e companhia necessária sem abdicar da própria individualidade.

    A relação com o pai ou mãe que ficou sozinho irá se estreitar, os papéis se invertem, os filhos passam a agir como os pais da relação, levando para passear, cuidando, ligando para lembrá-los dos remédios ou simplesmente para saber como andam as coisas. Segundo a psicanalista Adriana Castro de Sá, "A sociedade impõe que devemos cuidar de nossos pais, principalmente quando um dos dois fica viúvo. Geralmente quando é a mãe, fica difícil deixá-la porque o filho se sente culpado. Muitas vezes mãe e filha ou mãe e filho formam uma dupla inseparável. Vão para o shopping, são melhores amigas(os), compartilham tudo. A mãe aceita tudo, mas por baixo desta aceitação ela está dizendo: ceito, mas você tem que ficar comigo. Sou sua melhor amiga, lembra?" Essa relação de troca pode parecer assustadora, porém construímos e pertencemos a essas relações durante toda a vida, mesmo que inconscientemente. O que fica mais evidente quando o outro com o qual nos relacionamos se torna mais dependente, mais frágil ou apenas mais carente.

    Evoluímos como pessoa quando temos alguém para cuidar. A vida pode até correr um curso diferente do que planejamos, mas ela ganha um novo sentido e crescemos com essas novas experiências. Uma grande amiga perdeu a mãe quando ainda éramos adolescentes, com as irmãs já casadas, foi de filha caçula para a grande companheira do pai. "Pelo fato dele ser homem e não saber nada sobre responsabilidade doméstica, sobrou tudo para mim. Além de ter que ajudá-lo emocionalmente, afinal ele perdeu sua parceira de anos, acabei amadurecendo, até sem querer, pois enquanto a maioria dos meus amigos se preocupavam em ir ao shoping ou algo assim, eu estava preparando o jantar ou arrumando a bagunça. Tive que deixar os sonhos de lado para viver a realidade, muitas vezes pesada. Tentava amenizar a dor que ele sentia, mas nem sempre conseguia. Por exemplo, não conseguia fazer o mesmo tempero que minha mãe."

    Assim como minha amiga e como Jennifer Conlin, é preciso ser companheiro de quem agora ficou só. Não deixá-lo sozinho, mantê-lo sempre ocupado. Envolvê-lo nas atividades, nem que isso signifique reorganizar a rotina, criar escalas, criar passeios e atividades para que a família e os amigos estejam sempre por perto.

    Valorizar o que ele ou ela gosta de fazer também é importante, dar estímulos para dançar, viajar, fazer artesanatos, atividade física, ou qualquer outra atividade que dê prazer, o mantenha ocupado e o faça sentir-se vivo. Sentir-se vivo, esse é o segredo, afinal um grande desânimo pode ser avassalador nesses momentos, mas saber que existe vida mesmo depois da morte de alguém tão querido, ou após um abandono, divórcio, viagem definitiva ou doença. E como filhos, como seres humanos temos o dever de transmitir essa esperança, repassar esse fôlego de vida para que ganhem força e se encontrem novamente no mundo.

    A lei da natureza, se me permitem dizer assim, caminha para que os filhos cuidem dos pais, para que os pais se vão e tenham tido a chance de deixar um legado ainda maior nos últimos momentos ou anos de vida. Esse legado deve ser valorizado como a grande chance de cumprir o dever e receber em troca a maior remuneração de todas as outras. Fazer companhia para um pai solitário em um sábado à noite não é um sacrifício, e sim um grande privilégio de retribuir todo o amor recebido. Deixar de sair com os amigos ou trocar um jantar romântico pela companhia da mãe que está sozinha certamente é mais prazeroso do que qualquer outra companhia. Que não soframos por antecipação, mas que saibamos de nosso papel, de nossa eterna dívida com aqueles pelos quais seremos eternamente dependentes, até mesmo nos momentos onde teoricamente eles dependem de nós.

    Leia também: 9 coisas que aprendi após a morte de meu pai

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Karin Cristina é pedagoga, mãe e esposa. Apaixonada pelo ser humano, acredita que o conhecimento é capaz de mudar a humanidade e a leitura é o caminho.

Quando a outra metade de meu pai não estiver aqui

Somos responsáveis por muitas pessoas ao longo da vida, mas nos tornamos ainda mais quando um de nossos pais ficam sozinhos. Saiba como enfrentar esse desafio e levar alegria onde é só tristeza.
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